ÅninhÅ - Crônicas de Arnaldo Jabor


12º texto

Hoje, só as bestas quadradas serão felizes

Fui ver o filme Amélie Poulain, que está estourando nas bilheterias mundo afora. Disseram-me que era "esperançoso, um refrigerio para o aterrorizante mundo atual". Armei-me de pipocas e mergulhei no escuro. Adorei. O filme é uma perfumaria , mas eu amei. Durante duas horas, esqueci de mim mesmo. E descobri a verdade inapelável: eu quero, eu preciso me "alienar", como se dizia antigamente. A "alienação" virou uma necessidade social. O filme é uma fábula simpática de uma "neo-Poliana", uma chapliniana mocinha cheia de compaixão, que modifica a vida dos fracassados e infelizes.

Saí do cinema pensando: Amélie, eu quero ser outro. Não quero ser mais eu. Eu não me agüento mais, quero me "alienar", virar, se necessário, uma besta feliz. Eu fazia filmes, mas a vida me levou a virar jornalista, profissão que adoro, mas que me obriga a uma incessante observação do dia-a-dia, fazendo-me amargurado, num crescente rancor por um país que não se conserta, como queria minha geração romântica. Por isso, Amélie Poulain, venha me modificar, me faça sorrir alvamente, me traga a baba dos idiotas, venha Forrest Gump, me vidre os olhos de parvoice, venha Prof. Pangloss, me ensinar a cultivar o jardinzinho dos babacas.

Enquanto milhões de árabes se acotovelam em Meca, unidos na única certeza de Alá, nós estamos sós. Não temos Alá; só temos o cinema americano, nossas religiões são ralas, não nos prostam a rezar para Meca, como lagartixas felizes cinco vezes por dia; vivemos dentro da angustiante democracia liberal, que nos amaldiçoa com esta liberdade inútil. Por isso, Amélie Poulain me inspirou uma lista de conselhos de auto-ajuda para nos devolver uma abjeta e deliciosíssima felicidade neste mundo sinistro.

Eia! Avante, românticos sofredores, cidadãos nostálgicos do Bem, aqui vai um Alcorão substituto, um guia de sobrevivência na selva global. O princípio básico é o "Não" - a negação de evidências, a técnica de nada ver, a "conduta de evitação", como fazem os fóbicos. "Não" olhar a miséria nas ruas, evitar os menininhos nos sinais cariocas, principalmente a nova invenção dos pequenos desgraçados, fazendo malabarismos com três bolinhas para ganhar esmola, menininhos esfarrapados diante de BMWs indiferentes.

"Não" olhar mães com nenéns no colo nos meios-fios e, se por acaso, entrarem em nosso campo de visão, imediatamente convocar a moral de classe média de que "essas mães podiam trabalhar, mas não o fazem por preguiça de enfrentar um tanque de roupa". "Não" ver noticiários, nem ler os jornais ácidos e veristas; não ver, por exemplo, os desgraçados sem-teto que serão expulsos à bala no Pará, enquanto o Jarbas Barbalho tem habeas-corpus. Diante da injustiça, blindar-se, lixar a alma, laquear o coração.

Mas, não pensem que somente a "alienação" é um bom procedimento. Podemos ser felizes também com "ideologias". Por exemplo, diante da tal "globalização" da economia, podemos ter duas atitudes. Uma, é acreditar, lívidos de certeza, que o livre mercado vai tirar o homem de suas dores e que a riqueza choverá sobre os emergentes, como festas da uva. Esperança neoliberal. Ou, então, cheios de entusiasmo, como em Porto Alegre, acreditar que homens e mulheres com camisetas de Guevara e tocando o tambor de Mercedes Soza ou com as "veias abertas" de amor pela América Latina, como Galeano, conseguirão reverter a exclusão e a fome, apenas pelo dom mágico das palavras de ordem. Esperança de "esquerda".

São as delícias do auto-engano: nas duas posições, de olhos vidrados, arfantes de certezas, evitaremos o incômodo de ver a evidente vitória do capitalismo mais bruto. Dica de felicidade: esquecer a Arte. Isso mesmo. Essa tal de "Arte" que sempre nos evocou um ideal de harmonia, essa saudade da natureza da qual nos exilamos, essa fome de eternidade tem de acabar de uma vez por todas. Abaixo Bach, Goya, Shakespeare, Rimbaud e toda uma lista negra de velhos idiotas. Devemos nos banhar nos filmes americanos, nas audições de axé music, de pagodes e raps, de bundas e garrafas, até o momento em que, tomados pela revelação pós-moderna, exclamarmos em lágrimas: "Sim, sim, Schwarzenegger, sim, techno music, sim Celine Dion, sim Phillipe Starck, sim Grisham, sim, eu vi a luz! Aleluia!" Outra dica: tirar da cabeça o velho hábito ocidental do criticismo. Aceitar tudo que nos é oferecido, com lábios trêmulos de gratidão: "Sim, sim, Silvio Santos, sim, Ratinho, sim, Edir Macedo, sim, obedecemos..."

Há muitas formas de ser feliz. Pode ser pela adesão ao princípio do "melhor dos mundos", das pequenas maravilhas do cotidiano: "Ohh... como é belo o amor à vida que esses favelados têm..." ou por uma transposição fatalista meio oriental : "Ohh... esta enchente que matou 200 estava escrita - deve ter um lado bom..." Também é possível ser feliz pela entrega total a uma infelicidade, a um pessimismo absoluto tipo Cioran, pela deliciosa alegria dos céticos, pelo desprezo pela vida lá fora. Sem esquecer os "militantes imaginários" que torcem pelo "bem do Homem", como pelo Palmeiras, com a consciência limpa, em casa, de pijama.

Meus mandamentos de felicidade atual não caberiam neste artigo. Mas as regras básicas são: esquecer os outros e só atentar para si : "Eu sou mais eu..." Entregar-se ao consumo: "A felicidade é meu jeans Calvin Klein." Entregar-se ao narcisismo radical: "Não há popozuda mais siliconada na Avenida." A busca da ignorância mais negra: "Não me venha com papos-cabeça!" Ou mesmo a adesão ao mais remoto feudo-cabeça: "Fora Mallarmé, o resto é lixo..."

E só assim, "alienados", com os olhos bem tapados, com o coração lacrado, com o cultivo da estupidez, com a devoção à baba elástica e bovina dos imbecis, poderemos chegar à revelação final e, num rasgo de felicidade, amar para sempre a beleza do excremento!


Escrito por Aninha às 17h05
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ESCLARECENDO AS COISAS...

Como muitos já devem saber, o texto: A bunda dura, não é do Jabor. Quando o publiquei aqui, realmente não fiz grandes verificações sobre sua autenticidade. Recebi por e-mail, e fiz mal de não ter conferido se era do Arnaldo. De hoje em diante, vou tentar verificar os outros textos postados. Aceito contribuições.

=> Pois bem, hoje vou deixar um texto aqui, quer dizer, se conseguir postar né... Se quiserem enviar algum comentário, por favor, mandem para: anacarolinacosta_bg@hotmail.com

Obrigado pela atenção e pelo prestígio dado à este pequeno blog de Crônicas.



Escrito por Aninha às 16h53
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11º texto

O chato é antes de tudo um forte

Está tudo tão chato no Brasil, que vou escrever sobre os chatos. Você é chato? Nunca saberá. O chato não se sabe como tal, ou melhor, sabe sim, mas sempre tem a esperança de sair da categoria e ser aceito como não-chato. Por isso, chateia todo mundo. O chato é, antes de tudo, um carente. Ele vive do sangue dos outros, do ar dos outros, o chato precisa de você para viver. Sozinho, o chato não existe. Existem vários tipos de chatos. O mais famoso é o chato de galochas, que eu pesquisei e descobri que a origem do termo. Fala do cara que sai de casa com chuva torrencial, põe as galochas e vai na tua casa para te chatear. Há chatos masoquistas e sádicos. O primeiro é aquele que gosta de chatear para ser maltratado: "Porra, não enche, cara!" Adora ouvir essa frase, para remoer um rancor delicioso que valoriza sua solidão: "Não me entendem, logo sou especial!" O chato sádico, não. Ele quer ver teu desespero e escolhe os piores momentos para te azucrinar: "Poxa... sua mãe morreu ontem, mas ouve meu problema com minha mulher..."

Eu não vou fazer aqui um tratado geral dos chatos, como já fez o Guilherme Figueiredo, aliás um livro chato. Como lutar contra eles? Por exemplo, o Tom Jobim, uma das maiores vítimas de chatos, ensinou-me um truque: "Use óculos escuros. O chato fica desorientado quando não vê teus olhos. O chato adora ver o próprio rosto refletido em teus olhos desesperados. Com você de óculos escuros, ele desiste e vai embora". O chato gosta de ver teu sofrimento, por isso não adiantam as respostas malcriadas, resmungos. Ele gruda mais. Nem adianta fingir simpatia, na esperança de que ele parta. Não há solução. Se bem que a reza ajuda. O chato está falando e você ali lembrando a "Ave Maria". Te acalma como um mantra e Deus pode vir em tua ajuda.

Outra técnica que funciona muito é chatear o chato. Seja o chato do chato. Ele pergunta: "Por que você não volta a fazer cinema?" E você retruca: "Que você está achando do PMDB?" Faça-o falar, como o Freud agia com as histéricas. O chato falador é mais suportável do que o chato perguntador. Depois que eu comecei a falar na TV, virei um papel-de-mosca para chatos. Não quero bancar o famosinho mas, veja bem (como dizem os chatos), o sujeito te vê na TV, no quarto onde ele está transando com a mulher e você na tela, falando sobre o Chavez... O cara fica íntimo teu e te agarra na rua, no shopping e gruda, como um colega conjugal. Uma vez, tinha um chato no celular (grande tipo novo, o chato do celular) e eu tomando um cafezinho no aeroporto, oito da manhã, indo para Porto Velho, com conexões. "Ihh... meu amor... sabe quem está aqui ao meu lado?... O Jabor... éé... quer ver?" Se vira para mim e: "Fala aqui com minha namorada... o nome dela é Eliette". Esse é primo do chato-corno: "Minha mulher te ama; dá um autógrafo pra ela... Escreve: Te amo, Marilu..." (O chato-mala nunca tem caneta ou papel): "Escreve aqui mesmo neste guardanapo molhado..."

Temos também o chato do elevador. Estou num elevador vazio, indo para o 20. Entra um cara e me olha. Eu, precavido, já estou de cabeça baixa. Há uns momentos tensos de dúvida: "Ele ousará falar?" — eu penso. "Falo com ele?" — ele pensa. Passam uns andares. "Ele não vai agüentar" — eu penso. Não dá outra. "Você não é aquele cara da TV?" "Sou... ha ha..." — digo, pálido, fingindo-me deliciado. "Só que eu esqueci teu nome... Como é teu nome mesmo?" "É Arnaldo", digo eu, querendo enforcá-lo na gravata de bolinhas. "Não... é outro nome... ah... é... Jabor... isso... porra, claro... E é você mesmo que escreve aquelas coisas...?" E eu penso, sorrindo simpático: "Não; é a tua mãe que me manda lá da zona".

Tem o chato-mala, sempre no ataque. Outro dia, também no aeroporto, eu subindo uma escada, com duas malas e o cara berrou: "Eiii, me dá um autógrafo!" Todo mundo olhando e eu com duas malas. "Não me leve a mal, mas estou pegando o avião..." E ele: "Poxa... tu tá ficando é muito mascarado, cara!"

Um dia, houve o clímax, a apoteose do chato do autógrafo. Fazia eu um modesto xixi num banheiro de cinema, aquele xixi triste e pensativo, quando o cara chegou: "Me dá um autógrafo?" Fiquei uma arara: "Estou fazendo xixi... porra... tu quer o quê?" E ele: "Qual é a tua? Tá pensando que eu sou viado? Enfia esse autógrafo..."

Tem muitos tipos. Tem o chato crítico. Ele te agarra na rua e começa com elogios rasgados: "Você é o máximo; aquele teu artigo foi demais, mas... (trata-se do chato do ‘mas’...)...mas, você disse uma besteira horrível, outro dia — o PIB da China não é aquele que você falou..."

Um chato muito encontradiço é o chato da Ponte Aérea... Ele fica à espreita na sala, atrás de uma coluna. Você entra... ele te vê de longe... Você pensa: "Será que ele me viu?". Você finca os olhos no jornal, trêmulo de medo e esperança. Dali a pouco, passos a teu lado, uma maleta pousando no chão e ele gruda: "Posso lhe dizer uma coisa...?" E pela lei de Murphy, em geral ele estará na poltrona ao lado no avião.

Tem o chato da foto: "Posso tirar uma foto com você?" Pronto. Lá estou eu na rua, abraçado a um idiota de bigode, com todo mundo olhando. Flash! E o cara some num segundo, com um rápido "obrigado". Esses só querem nos roubar a imagem... O chato da foto sempre me deixa carente...

Há muitos tipos. O chato-altissonante, por exemplo. Grita no bar, de longe: "Ei, Jabor, que que tu tá achando da guerra Israel-Árabe?" Um altissonante uma vez me berrou na saída de um teatro: "Adoro você... (eu sorri, rubro de modéstia)... mas tu precisa parar de falar besteira sobre o Lula, hein...! Olha, por isso o Ferreirinha aqui te odeia!" (Ao lado dele, está o "ajudante de chato", rindo com deboche).

Tem todo tipo. E agora tem os "e-chatos" na internet que, aliás, botaram na rede artigos boçais e maniqueístas, que eu nunca escrevi, assinados com meu nome. Já puseram um em que "eu" esculhambava a Adriane Galisteu. E agora tem outro rolando, chamado "Faz parte", onde o falso "eu" humilha aquele rapaz que ganhou o "Big Brother". Além de e-chatos, esses são canalhas e burros.



Escrito por Aninha às 11h22
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10º texto

  Ninguém mais namora as Deusas

  Outro dia, a Adriane Galisteu deu uma entrevista dizendo que os homens não querem namorar as mulheres que são símbolos sexuais. É isto mesmo.
  Quem ousa namorar a Feiticeira ou a Tiazinha?
   As mulheres não são mais para amar; nem para casar. São para "ver".
Que nos prometem elas, com suas formas perfeitas por anabolizantes e silicones?
Prometem-nos um prazer impossível, um orgasmo metafísico, para o qual os homens não estão preparados...
As mulheres dançam frenéticas na TV, com bundas cada vez mais malhadas, com seios imensos, girando em cima de garrafas, enquanto os pênis-espectadores se sentem  apavorados e murchos diante de tanta gostosura.
   Os machos estão com medo das "mulheres-liquidificador".
   O modelo da mulher de hoje, que nossas filhas ou irmãs almejam ser (meu Deus!),  é a prostituta transcendental, a mulher-robô, a "Valentina", a "Barbarela", a máquina-de-prazer  sem alma, turbinas de amor com um hiperatômico tesão.
  Que parceiros estão sendo criados para estas pós-mulheres? Não os há.
  Os "malhados", os "turbinados" geralmente são bofes-gay, filhos do mesmo narcisismo de mercado que as criou.
Ou, então, reprodutores como o Zafir, para o Robô-Xuxa.
  A atual "revolução da vulgaridade", regada a pagode, parece "libertar" as mulheres.
Ilusão à toa.
  A "libertação da mulher" numa sociedade escravista como a nossa deu nisso: Superobjetos. Se achando livres, mas aprisionadas numa exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor, carinho e dinheiro.
São escravas aparentemente alforriadas numa grande senzala sem grades.
Mas, diante delas, o homem normal tem medo.
Elas são "areia demais para qualquer caminhãozinho".
  Por outro lado, o sistema que as criou enfraquece os homens.
  Eles vivem nervosos e fragilizados com seus pintinhos trêmulos, decadentes, a meia-bomba, ejaculando precocemente, puxando sacos, lambendo botas, engolindo sapos, sem o antigo charme "jamesbondiano" dos anos 60.
  Não há mais o grande "conquistador".
  Temos apenas os "fazendeiros de bundas" como o Huck, enquanto a maioria virou uma multidão de voyeur, babando por deusas impossíveis.
  Ah, que saudades dos tempos das bundinhas e peitinhos "normais" e "disponíveis"...
Pois bem, com certeza a televisão tem criado "sonhos de consumo" descritos tão bem pela língua ferrenha do Jabor (eu).
  Mas ainda existem mulheres de verdade.
  Mulheres que sabem se valorizar e valorizar o que tem "dentro de casa", o seu trabalho.
  E, acima de tudo, mulheres com quem se possa discutir um gosto pela música, pela cultura, pela família, sem medo de parecer um "chato" ou um "cara metido a intelectual".
Mulheres que sabem valorizar uma simples atitude, rara nos homens de hoje, como abrir a porta do carro para elas.
  Mulheres que adoram receber cartas, bilhetinhos (ou e-mails) românticos!!
  Escutar no som do carro, aquela fitinha velha dos Beegees ou um cd do Kenny G (parece meio breguinha)...mas é tão boooom namorar escutando estas musiquinhas tranquilas!!!
  Penso que hoje, num encontro de um "Turbinado" com uma "Saradona" o papo deve ser do tipo:
-"meu"... o meu professor falou que posso disputar o Iron Man que vou ganhar fácil!."
-"Ah "meu"..o meu personal Trainner disse que estou com os glúteos bem em forma e que nunca vou precisar de plástica". E a música???
Só se for o "último sucesso (?)" dos Travessos ou "Chama-chuva..." e o "Vai serginho"?
  Mulheres do meu Brasil Varonil! Não deixem que criem estereótipos!
Não comprem o cinto de modelar da Feiticeira. A mulher brasileira é linda por natureza!!
Curta seu corpo de acordo com sua idade, silicone é coisa de americana que não possui a felicidade de ter um corpo esculpido por Deus e bonito por natureza. E se os seus  namorados e maridos pedirem para vocês "malharem" e ficarem iguais à Feiticeira, fiquem... igual a feiticeira dos seriados de Tv:
Façam-os sumirem da sua vida!!!



Escrito por Aninha às 11h56
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9º texto

A bunda dura - Arnaldo Jabor

  Tenho horror a mulher perfeitinha. Sabe aquele tipo que faz escova toda manhã, tá sempre na moda e é tão sorridente que parece garota-propaganda de processo de clareamento dentário? E, só pra piorar, tem a bunda dura!!!
  Pois então, mulheres assim são um porre. Pior: são brochantes.
  Sou louco? Então tá, mas posso provar a minha tese. Quer ver?
a. Escova toda manhã. A fulana acorda as seis da matina pra deixar o cabelo parecido com o da Patrícia de Sabrit. Perde momentos imprescindíveis de rolamento na cama, encoxamento do namorado, pegação, pra encaixar-se no padrão Alisabel é que é legal. Burra.
b. Na moda: estilo pessoal, pra ela, é o que aparece nos anúncios da Elle do mês. Você vê-la de shortinho, camiseta surrada e cabelo preso? JAMAIS! O que indica uma coisa: ela não vai querer ficar "desarrumada" nem enquanto tiver transando. É capaz até de fazer pose em busca do melhor ângulo perante o espelho do quarto. Credo.
c. Sorriso incessante: ela mora na vila do Smurfs? Tá fazendo treinamento pra Hebe? Sou antipática com orgulho, só sorrio para quem provoca meu sorriso. Não gostou? Problema seu. Isso se chama autenticidade, meu caro. Coisa que, pra perfeitinha, não existe. Aliás,ela nem sabe o que a palavra significa, coitada.
d. Bunda dura. As muito gostosas são muito chatas. Pra manter aquele corpão, comem alface e tomam isotônico (isso quando não enfiam o dedo na garganta pra se livrar das 2 calorias que ingeriram), portanto não vão acompanhá-lo nos pasteizinhos nem na porção de bolinho de arroz do sabadão.
Bebida dá barriga e ela tem H-O-R-R-O-R a qualquer carninha saindo da calça de cintura tão baixa que o cós acaba onde começa a pornografia: nada de tomar um bom vinho com você. Cerveja? Esquece! Melhor convidar o Jorjão.
  Pois é, ela é um tesão. Mas não curte sexo porque desglamouriza, se veste feito um manequim de vitrine do Iguatemi, acha inadmissível você apalpar a bunda dela em público, nunca toma porre e só sabe contar até quinze, que é até onde chega a seqüência de bíceps e tríceps. Que beleza de mulher.
  E você reparou naquela bunda? Meu Deus...
  Legal mesmo é mulher de verdade. E daí se ela tem celulite? O senso de humor compensa. Pode ter uns quilinhos a mais, mas é uma ótima companheira de bebedeira. Pode até ser meio mal educada quando você larga a cueca no meio da sala, mas adora sexo. Porque celulite, gordurinhas e desorganização têm solução (e, às vezes, nem chegam a ser um problema). Mas ainda não criaram um remédio pra futilidade.
Nem pra dela, nem pra sua.



Escrito por Aninha às 23h27
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8º texto

Não basta indignação

Estamos indignados. Mas o perigo da indignação é que ela nos purifique e nos alivie. Que nos faça esquecer que a tragédia tem dois lados. Nossa tragédia é a incapacidade total que temos demonstrado para combater o crime. O inimigo não é só o tráfico.

O inimigo é também a desorganização, a falta de verbas, de armas, a falta de vontade política e de imaginação para lutar essa guerra suja, porque é uma guerra. O crime no Rio e em São Paulo não se combate com batidas policiais, espasmos que cessam quando passa a crise do momento. Assim nunca ganharemos.

O crime tem as verbas do pó, das armas, o crime é rápido - tem a vantagem de não ter burocracia. Não adianta só subir morro. A solução começa pela vigilância das fronteiras, passa por uma imensa estratégia policial. E militar.

O tamanho do problema exige uma imensa solução. Precisamos de um estado maior contra o crime. Que assuma que uma guerra já foi declarada.



Escrito por Aninha às 18h32
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7º texto

 Saudades de Evita

Evita surge e morre justamente no início da decadência da riqueza da Argentina no início do século XX. Era uma riqueza sem base, passageira, que contaminou a consciência argentina com uma ilusão irrealizável. Sonhando com Evita, que pregava justiça pela caridade e assistencialismo, a Argentina passou os últimos 50 anos sem se preparar para uma democracia real, produtiva.

De certo modo, Evita parece a própria América Latina. Ela é o mito substituindo a verdade política, ela é a esperança infundada num milagre, ela é o desejo de justiça secular sem os instrumentos para realizá-la, ela e Peron eram o substitutivo paternalista e populista de uma democracia que jamais vinga entre nós.

Hoje, depois de uma vaga euforia democrática dos últimos anos, mergulhamos de novo no populismo e no milagre impossível. Hoje, como há 50 anos, estamos na mesma. Sem base. Sem cultura política. Sem dinheiro. Não temos de chorar mais por Evita.

Temos de chorar pela permanência do seu mito. Santa Evita é a santa padroeira da tragédia latino-americana.



Escrito por Aninha às 18h30
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ATUALIZANDO

Já q faz um tempinho q não coloco as crônicas aqui, hoje "postarei" duas de uma vez, pq são curtinhas e dá bem pra ler...



Escrito por Aninha às 18h28
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6º texto

 Reality shows matam fome de verdade

Ah... é? Querem show de realidade, reality show? Pois aqui vai um artigo-realidade, c/ todas as suas dúvidas, informe rascunho, sujo texto, td q me passar pela cabeça enquanto escrevo. Será a verdade de minha mentira ou a mentira de minha verdade?Besteira, deixa de filosofias baratas... Deixa eu ver... Nelson Rodrigues dizia q a novela era importante p/ satisfazer nossa fome de mentiras. O show de realidade é p/ satisfazer nossa fome de verdade. O Paulo Emílio, o grande crítico de cinema, dizia q vamos ao cinema como ao bordel - em busca de ilusão.É isso aí... só q a televisão ñ é no escurinho do cinema, q tem algo de secreto, de fuga, algo q ficou no fundo dos anos 30-40. Ñ; a TV é c/ luz acesa, a TV é uma vitrine na tua sala, c/ ofertas de sabonete e de amores. TV ñ vende ilusão; vende desejos e os desejos crescem.A ficção, no cinema e na TV, ñ está dando conta do horror da realidade, do real-espetacular de hj. Q filme teve mais impacto q o reality show do Osama Bin Laden no dia 11 de setembro? Nunca a ficção foi tão real. As notícias e a ilusão se uniram em quatro aviões caindo do céu americano, pq, como sabemos, a TV é dividida em dois mundos: "The news is bad, the ads are good", como disse alguém. (Quem? McLuhan, Daniel Bell? "As notícias são más, os anúncios são bons" - (NB: 'news' é singular mesmo...) Naquele dia, o sonho explodiu. Naquele dia, descobrimos q a realidade ñ estava morta e que ela se movia c/ o timing ideal dos filmes... e td num curta-metragem de 20 minutos.Portanto, depois do 11 de setembro, como 'entreter', como fazer um desgraçado esquecer do mundo q estoura lá fora, q ilusão se pode ter, quando o horror ñ te deixa dormir no sonho e na mentira? E ñ só os deliciosos horrores q te satisfazem o rancor, mas tb q ilusão te aquecerá p/ vc esquecer o q viu na TV, a maravilha q poderia ser tua vida, qdo vc é apenas um excluído, sem grana p/ pagar um reles tênis ou uma sórdida geladeira? (Misturo 'tu' c/ 'você', oh... gramáticos, como na vida real) Além disso, nos dias de hj, vc ñ se deixa mais enganar c/ musicais românticos, vc ñ é mais amansado por Fred Astaire e Cid Charisse dançando no escuro, vc está indócil, querendo existir. Aí, Hollywood saca isso e resolve te dar mais "entretenimento", aumenta a dose da droga, mais na veia, mais, e porradas a granel e efeitos especiais e mais sexo, sexo, sexo... Mas, ñ adianta muito, pq... até onde pode ir um filme pornográfico, até onde?Até o interior do corpo, até o intestino pelo olho do ânus, pelas vaginas a dentro para achar a alma? E vc tb ñ tem como comer aquelas gatas de seios siliconados, musas virtuais, e tuas punhetas se encerram num triste jato de nd na mão molhada.

No meu delírio teórico, eu pensei: "Ahh... o reality show atende a um desejo do homem comum de ver a própria concepção, a 'cena primária', como dizem os psicanalistas, ver pelo buraco da fechadura, edipicamente, papai e mamãe transando na cama sagrada do drama burguês."Mas, ñ. É mais q isso, mermão. Isso apenas 'faz parte'. Vc quer mesmo é invadir a TV como os assaltantes invadem uma casa. Vc quer ver o q acontece no mundo dos q amam, dos q consomem, dos q existem. Você quer 'ver'; ñ sabe bem o quê ainda, mas quer ver o q te escondem, ver algo q te é negado. Você quer estar onde tem td: iogurte, carro do ano, Jade, cerveja c/ mulher boa, carros sport, luxo no shopping virtual da tela, você quer morar lá dentro como uma rosa púrpura do Cairo."Mas, aí, vc bateu na tela de vidro e ñ entrou, na emissora o porteiro te barrou, e vc viu q teu sonho era impossível. Foi então q as televisões do mundo perceberam tua desesperada vontade de existir e te disseram: "Vc pode entrar se for selecionado e sair daqui c/ corpo e alma, c/ identidade, vc pode nascer como o Bam Bam nasceu para a vida!" O reality show é o quebra-galho do sonho do socialismo q morreu, onde todos seríamos multidões cantantes. O reality show é democracia de massas cobrando ingresso. Mas, aí, nova surpresa. O SBT quis mostrar a verdade cotidiana de gente famosa, de personagens 'de ficção' da mídia. Enquanto isso, a Globo mostrou a aura q pode aflorar de anônimas e banalíssimas pessoas.E o ibope subiu ao avesso. Descobriu-se q vc ñ quer ver famosos e gostosas, como a Tiazinha e a Feiticeira revelando aos poucos sua 'verdadeira' face ou mesmo sua verdadeira bunda. Vc ñ quer ver a Tiazinha lavando roupa e a Feiticeira varrendo a casa. Ñ. Vc quis ver os anônimos florindo e brilhando. Vc quis ver uma beleza q vai aparecendo na convivência de gente boba como vc, gente q chora sem motivo, gente q fala com boneco, gente q vomita. Mais do q ver 'sacanagem' ou 'cena primária', vc descobre (e as TVs também) q quer ver o vazio, o nd do cotidiano, descobre q quer o alívio da informação e o vazio da verdade. A verdade é vazia, não-transcendental, a verdade está na pausa, no tédio, na falta de assunto, vc quer o alívio do nada. O sucesso do Big Brother esteve na verdade q se infiltrou quando nada acontecia, entre os momentos em que mentirosamente eles fingiam sofrer ou amar. O sucesso se deveu ao nada, ao tempo morto. Ali, no irrelevante, arde uma verdade profunda, sem nome, sem efeitos. Naqueles instantes, nasce alguma coisa que se parece com tua vida. Você quer ver o que acontece quando nada acontece. Na verdade, você quer ver quem é você. Qual será tua próxima fome?



Escrito por Aninha às 17h39
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5º texto

AninhaMulheres pensam e falam com o corpoAninha

Afinal de contas, o que quer a mulher? - perguntou o Freud, segurando seu charuto fálico. Bem, a mulher não quer nada porque ela não existe, respondeu o Lacan. Tem razão - existem as mulheres, com data, geopolítica, classe social. E aqui na TV, janela virtual do Brasil, surgiram agora quatro mulheres falando do que "querem" na televisão. Elas estão no canal GNT, no programa Saia Justa: Rita Lee, Fernanda Young, Marisa Orth e Monica Waldvogel. O programa está batendo todos os recordes da TV a cabo, comemoram Letícia Muhana, diretora da GNT, e Suzana Villas Boas, produtora-executiva do show das quatro meninas que, aliás, é ao vivo, quase um reality show. As razões do sucesso total? Acho que sei. O mundo masculino está cansando as pessoas; não é à toa que Roseana bateu alto nas pesquisas, que Rita Camata é chamada para vice, que Marina Silva, a corajosa e sensual seringueira, pode vir a ser vice de Lula. Ninguém agüenta mais aqueles sujeitos de terno, com seus bigodes e gravatas, decidindo os destinos mais finos da nação. A visão da mulher poderá ser mais democrática, mais tolerante, mais sutil nesta época tão dura de transição para uma democracia social - se é que ela virá...

O que há de novo no Saia Justa é que, normalmente, se convocam as mulheres para mostrar que estão "integradas" no mundo atual. Nesse programa, ao contrário, as mulheres estão é "estranhando" o mundo. Essa é a diferença. As mulheres se integram no mercado, muitas imitam à perfeição os homens no trabalho, com seus tailleurs e invisíveis bigodes, mas em geral são vistas com uma curiosidade desdenhosa pelos machos oficiais da mídia. Saia Justa é um território livre. Rita Lee é aquele luxo. Faz um low profile defensivo, mas nós sabemos que São Paulo não seria a mesma cidade se ela não existisse. Sob a capa de roqueira, ela é uma mulher política, faz uma análise cultural do País, desde os Mutantes. A escritora Fernanda Young é a pós-modernidade se expressando, uma mistura de mãe punk com intelectual pop, ostentando uma autoparódia na cara da gente, como arma crítica. Marisa Orth, a anti-Magda, inteligentíssima, destrói a caretice e a peruíce, tanto como atriz quanto como personagem, e Monica Waldvogel, sensata e doce, com o crivo da razão jornalística, faz o copidesque que orquestra um sentido para as idéias que explodem no belo cenário de Carla Caffé, sob a luz de cinema de Rodolfo Sanchez. Em Saia Justa, as mulheres pensam com o corpo; suas reflexões são sempre repassadas de uma subjetividade emocionada de onde sai um pensamento não-fálico, não definitivo. Novalis escreveu que "a mulher é o ponto de transição do corpo para a alma". Nessa imprecisão está a sua riqueza, principalmente nestes tempos submissos a um "pensamento único". Às vezes, escrevo sobre as mulheres no Brasil de hoje. Mas sou um pobre macho perplexo. Por isso, aqui vão algumas perguntas às meninas do Saia Justa:

Vocês não acham que as brasileiras comuns desconhecem a liberdade sonhada pelas feministas? O que vemos aqui é uma libertação da "mulher-objeto". Elas não estão virando "sujeitos" livres, mas querem ser mercadorias sedutoras, como um BMW, uma Ninja Kawasaki... O "objeto" é feliz, não sofre. As mulheres querem a felicidade das coisas. Querem ser disputadas, consumidas, como um bom eletrodoméstico. Verdade ou mentira? A gente viaja pelo mundo e vê que as européias ou americanas não ficam apregoando uma sexualidade berrante pelas ruas. Por que as brasileiras se exibem tanto como gostosas, peitos de silicone, coxas lipoaspiradas, bunda soerguida, vagina indomável, sorriso largo e debochado? Será isso prova de liberdade ou de fragilidade? Elas têm de oferecer sua carne nua o tempo todo porque são inseguras? Elas não prometem carinho; prometem "funcionamento". Não é por acaso que são chamadas de "avião" ou de "máquina"... As mulheres brasileiras são amigas ou inimigas dos homens? Por serem oprimidas, é válido que a brasileira use uma estratégia de controle sobre os machos, a sedução pela histeria, pela fragilidade fingida, pela dissimulação da competência? Pode a brasileira "viver sem mentir"? O que é a perua? A perua seria uma conseqüência disso? Quais as categorias de peruas? A perua malvada é o "outro" do machão?... E a bunda? Não merece uma reflexão? As bundas estão virando uma utopia. Não há mais o que mostrar. Nunca as mulheres foram tão nuas no Brasil... Já mostraram o corpo todo, as vaginas, o interior delas... Só restará, um dia, os intestinos... O que mais? A revolução feminista no Brasil será apenas esse strip-tease geral, essa dança da garrafa?O sexo total que nossas gostosas prometem é impossível. Os peitos de silicone estão cada vez maiores, estão virando depósitos de leite venenoso. A libertação da mulher no Brasil de hoje é uma vingança conservadora? Sim ou não? Ou "sei lá"? Ou não é nada disso e minhas críticas não passam do medo de um machista metido a fino? Será que toda essa loucura feminina, essas capas de revista, essas roupas de mau gosto em coquetéis e Caras, esses falsos brilhantes, essas gargantilhas com nome de marido, essas "ladies" querendo ser prostitutas e vice-versa, essas multidões de meninas lindas querendo se salvar pela passarela ou bordel, será que tudo isso, no fim das contas, não vai adoçar uma ordem excludente e discriminatória de séculos, por uma doce miscigenação de costumes e loucuras? Será que isso tudo não é bom? Talvez esteja surgindo no País, com vices e danças do ventre, uma nova política através de olhos femininos. Os homens têm destroçado tudo. Só as mulheres podem nos responder. E salvar. Talvez.



Escrito por Aninha às 16h53
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4º texto

O cinema é uma cachoeirra sem fim

Os filmes de hoje são uma extensão dos shopping centers. De vez em quando, algum desconhecido íntimo se aproxima e me pergunta, em geral me batendo no ombro: "Como é? Não vais voltar a fazer cinema?" Eu respondo: "Sei lá..." E o sujeito continua...: "Adorei aquele seu filme, o Bye Bye Brasil!..." "Aquele é do Cacá..." resmungo, deprimido. "Cineasta é tudo igual... Vocês levam um vidão, hein?" E me segreda, com sórdida cumplicidade: "Vocês comem atriz às pampas, hein?..." Desesperado, negaceio com um casanova discreto: "Nem tanto... nem tanto..." E fujo, enquanto o cafajeste me olha com inveja.

Saio, pensando: "Afinal, por que não volto a filmar?" Passei 25 anos olhando o mundo com o vício típico do cineasta, vendo as pessoas com ângulos de cinema: "Aquela moça, com uma lente 75mm, daria um close lindo, aquele casal correndo na chuva seria um travelling legal..."

Por que não filmo mais? Sei lá! Talvez seja o medo. Medo de errar a mão, nesse cinema de hoje, picadinho, "clipado", meio cínico, sem a "esperança" que havia no meu tempo. (Meu último filme foi em 1990, "Amor à Primeira Vista", uma co-produção franco-italiana para a TV que nem passou aqui). Seu eu fizesse um filme hoje, gostaria de reviver o clima dos anos 60: uma busca de "redenção" para o mundo, um antídoto contra a indústria cultural bruta, filmando dentro do "Sistema", para corroê-lo com a delicadeza de uma obra de arte. Isso me lembra a última vez que vi o cineasta francês Louis Malle. Foi no Rio; meses depois ele morreria de câncer, como o Truffaut. Falamos da fumaça dos cigarros "Gitanes" e "Gauloises", dos paletós surrados dos cinéfilos de Paris, dos papos-cabeça da "nouvelle vague", do amor profundo à cinemateca francesa, da magia do preto-e-branco, da alma sagrada que os cinemas de shopping centers exterminaram, entre pipocas e cachorros-quentes, esse cinema que hoje é uma extensão das praças de alimentação.

O cinema era uma arte pública e não vivia em guetos como a poesia ou pintura. No Cinema Novo, buscávamos o chamado "específico fílmico", utopia de imagem a ser atingida. Vivíamos uma arte que "salvaria" o século, "mudaria cabeças" - achávamos. Mas, claro, que as cabeças sempre mudam para baixo. Como sempre, os americanos triunfam com esse lixo virtual que produzem hoje, violento ou superficial, em que o antigo "autor" ou "diretor" virou apenas um guarda de trânsito para os atores: "Vai por ali, vem por aqui..."

Por isso, sempre que os desconhecidos íntimos me perguntam se volto a filmar, eu me lembro de Humberto Mauro, o grande cineasta-fundador dos anos 20 e 30 que conheci, já velhinho. Ele tinha uma definição famosa: "Cinema é cachoeira..." O que ele queria dizer? Explico. Quando ele fazia seus filmes de fundo de quintal, ainda em Cataguazes, depois na Cinedia do Rio, todo amigo que ele encontrava na rua, dizia para ele: "Humberto, meu querido, você precisa ir lá no meu sítio filmar minha cachoeira. Você precisa ver que cachoeira!..." E o Humberto Mauro ficava intrigado: "Por que sempre querem que eu filme cachoeiras?" Um dia ele deu uma palestra no cineclube e, na saída, um jovem cinéfilo lhe agarrou pelo braço e, ansioso, lançou-lhe a pergunta crucial: "Seu Mauro... qual é a alma, a essência do cinema?" E aí o velho cineasta inaugurou a definição eterna: "Cinema, meu filho, é... cachoeira!"

Por isso, tremo, quando penso em filmar de novo. Gostaria de fazer um filme que não quisesse provar nada, mas que fosse a prova de alguma coisa essencial, como uma defesa "ecológica" contra a cultura de massas. Mas, quem sou eu, para desejar, como um Dreyer, um Tarkovsky, ou Murnau ou Fellini? Quem sou eu para combater a infernal tempestade de imagens que se abate sobre nós, essa praga virtual? Tudo está tão falso que, às vezes, imagino que alguma personagem sairá da tela um dia, como na "Rosa Púrpura do Cairo", e perguntará à platéia: "Hei! Vocês aí - afinal, o que é realidade?" E nós responderíamos: "Realidade" é essa coisa aqui, fora e dentro do nosso corpo, fluindo sem parar, é esse rio de signos, essa ilusão dos sentidos, esse mistério que tentamos deslindar inutilmente, pois fazemos parte dele. "Realidade" é essa coisa sempre além da ciência, sempre além do sentido, além do tempo e do espaço, inatingível, pois estamos todos boiando num infinito caldo-de-cultura, onde "parece" que boiamos; apenas "parece" pois somos também o caldo onde boiamos. A mosca e a sopa são a mesma coisa.

Quanto mais se fazem descobertas, mais fundo é o túnel do mistério. Quanto mais aberta for a maquina do mundo,  mais vazia e misteriosa fica; a fome de decifrá-la  pode descrevê-la,  mas não a condensa. Por isso, a melhor metáfora para o cinema é a cachoeira mesmo - uma água que não pára de fluir. Não há uma realidade que finalmente se detenha e se configure; buscá-la, tanto no cinema como na filosofia ou na política, é fracasso certo. No século 20, tentamos capturar o mundo vasto e incessante em fórmulas que o explicassem, mas nada ficou  decifrado. Não há  política ou arte ou filme que dê conta do implacável fluir dessa cachoeira que se chama "vida". O drama dos séculos tem sido a tentativa de se alcançar um céu estático, um dia em que tudo se "resolva". A "própria" idéia de "paraíso" na terra ou no céu esconde (ou comprova) o desejo de parar o espaço e o tempo. O "paraíso" seria um lugar imóvel, onde não houvesse a morte, nem cinema. Onde tudo parasse. Por isso, não há "cinema paradiso" (por isso, aquele filme italiano é tão ruim). Somos uma cachoeira contemplando a outra. Nossas ações têm esse fracasso fundamental: por mais que olhemos o fundo das coisas, jamais veremos um fim ou um início. Cinema e vida são cachoeiras, como descobriu Humberto Mauro.



Escrito por Aninha às 13h47
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3º texto

O grande sucesso do herói sem coração

"Eu quero, eu desejo, eu preciso, eu não me conformo de ficar olhando a vida de fora, feito um espectador de TV, eu quero tênis, eu quero Rolex, eu quero carrão, eu quero lancha, eu quero cartões de crédito e aqueles smokings lindos que o James Bond usava debaixo do neoprene mesmo quando mergulhava, eu quero a elegância total, sorriso nos lábios, pisando em mármores de hotéis, tomando drinques à beira da piscina ou nos pianos-bares, com uma louraça a meu lado ouvindo eu tocar, eu, campeão mundial de piano, como todos sabem... Eu quero poder escolher entre a Mercedes da hora e o Jaguar do ano, eu quero ter o corpo perfeito, malho muito e de noite eu fico horas pensando em mudar meu corpo, como se eu fosse nascer de novo, como se eu fosse fazer o parto de mim mesmo.

Eu me imagino inteiramente liso para iniciar o parto, como alguém raspado antes de uma cirurgia e, de dentro de meus membros, começa a surgir um outro corpo, como a borboleta saindo de dentro da crisálida, meus pés, úmidos e novos, saem de dentro de meus velhos pés, minhas pantorrilhas rompem a casca da pele e aparecem fortes para jogar um futebol de campeão, eu, que sempre era barrado nas peladas de rua, mas que hoje já tenho os braços fortes como os de Charles Bronson, me preparando para o grande momento que vai chegar.

Eu sonho há anos com esse dia, pois sempre soube que viria um bonde legal, uma parada legal que eu não sabia qual era, mas que viria... Aproxima-se a hora da liberdade, a hora em que eu vou quebrar todos os recordes e pular para uma outra vida. Depois disso, ninguém me segura mais... Como segurar um homem como eu, com minha macheza gloriosa, meu pênis campeão que tem uma tatuagem de seta para lembrar à minha mulher qual é o caminho da adoração religiosa, quando eu fico em pé na cama e ela reza, olhando para mim como o seu Deus?

Ela está entranhada em mim como uma tatuagem e nem que arranque a pele ela se livra do meu amor. Parece que somos um só. Ela me disse um dia: "Eu sou você!..." Pois, está chegando a hora H, quando eu terei tudo a que tenho direito, como motocas Electra Glide ou Kawasaki, terei um apartamento em cima de uma pedra em frente do mar, em frente das altas ondas que eu, campeão havaiano de surfe em maremotos, cavalgarei e meu apartamento vai ser todo de mármore, cheio de controles remotos, de onde eu vou comandar os garçons que servem caviar e champanhe nas noites de festa que eu vou dar, com pagodes e com a Ivete Sangalo ou a Daniela Mercury cantando para meus amigos da revista Caras, eu vou mandar em tudo porque serei o mais poderoso, o mais forte, o mais rico, falando inglês, francês, russo, alemão, latim, e todo mundo vai me respeitar e gostar de mim, porque eu vou ser legal com quem for legal comigo, mas se não for legal comigo será esculachado, porque eu não vou dar colher de chá para traidor e porque nunca mais vou ser humilhado por aquele patrão que me expulsou da loja dizendo que eu era ladrão de camiseta e de tênis, só porque eu fui ao show da Negritude Jr. com o tênis fosforescente que chegou do Paraguai e com a camiseta do Robocop.

Nunca mais vou ser fraco de alma, inclusive porque eu estou fazendo musculação por dentro do corpo; por fora, eu já estou com uma potência de soco de um Volks a 80 km por hora, mas, por dentro, meus músculos da alma estão cada vez mais duros, meu coração mais seco, único caminho para o sucesso, como nos ensina a cara dos políticos na TV. Esta é a receita do sucesso: coração duro, nem um pisco, nem um tremor de mão, nem um olho aguado, nada. Eu quero mesmo é ser de pedra, aliás, eu quero ser uma "coisa", eu queria ser uma "12" de cano serrado ou uma espada de samurai.

Já pensou se o Beira-Mar fosse bonzinho? Ele seria um joão-ninguém. Eu sou duro, até já treinei outro dia com o gato no microondas, os miados e os olhos de pavor na janelinha. Quero coração duro para satisfazer todos os meus desejos, como manda o meu amigo secreto que conversa comigo de noite, o "Velho", que aparece quando vou começando a dormir e me diz: "Vai fundo, bota para quebrar, não vai morrer pobre feito eu!" Como eu vou explicar para ele, se eu amarelar?

Eu já estou pronto para a ação. No bolso, o meu discurso de posse, prontinho para o dia em que vou receber o Grande Prêmio na Academia dos Heróis. Já sei até de cor, vou repetindo baixinho enquanto subo a escada: "Eu queria agradecer inicialmente ao Bruce Willis, ao Chuck Norris, ao Escadinha e a todos os heróis do cinema e da barra-pesada o muito que me ensinaram. Só eu sei quanto lutei para chegar até aqui, para ganhar este prêmio. Quero agradecer também aos olhos azuis de minha amada, que tanto me incentivaram a ter coragem de ser feliz"... Acho superlegal o meu discurso de posse na Academia e já vejo os super-heróis me aplaudindo.

Bem, eu já estou pronto. Cabelo raspado feito o Ronaldinho, músculos desenhados e duros feito o Bruce Lee. Meu corpo está tremendo por dentro, mas sei que não é medo não; é tesão, é a alegria de conquistar a vida nova.

Parece que tem outro homem dentro de mim, eu, o chefe da equipe mundial de caratê, eu, maior sucesso em breve nas revistas dos chiques e famosos, eu, que quebro 20 telhas com um soco, eu que serei o novo ídolo dos jornais, eu sinto que o mundo vai se abrir para mim feito um shopping center e eu só irei pegando as mercadorias e colocando na Ferrari vermelha onde minha mulher me espera para fugirmos.

A chave da vida nova já está aqui na minha mão: esta barra de ferro que mata em silêncio, enquanto subo a escada, na maior adrenalina, com meu irmão atrás de mim, feito um ninja de máscara negra, agora que vamos abrir o quarto e começar a festa. Eles dois estão dormindo. Se a barra de ferro não resolver logo, estrangulo."



Escrito por Aninha às 23h18
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2º texto

Antigamente, quando eu era pequenino.

Antigamente, quando eu era pequenininho... - com essa frase mágica eu corto qualquer choro de meu filhinho, qualquer bagunça em curso e ele sobe em meu colo de olhos abertos, lágrima secando, para ouvir as estórias de meu passado. Por marketing paterno, eu descrevo o passado como um lugar meio escuro, ruim, sem nada, para ele valorizar os muitos brinquedos que tem, os homens-aranha, o Bat-Movel, o peixinho Nemo no aquário e as "gelecas" trêmulas no chão. É uma artimanha meio sacana, mas funciona; não só lhe dá um início de consciência de seu privilégio social, como valoriza o "bom papai" aqui. E ele adora investigar meu passado: Papai, antigamente não tinha vídeo? Não. Não tinha televisão? Não; tinha só rádio. Tinha He-Man? Não; tinha Super-Homem, mas só tinha no gibi. O que que é gibi? - ele pergunta. Revista de quadrinhos - respondo -, mas tinha Príncipe Submarino que hoje não tem mais, um super-herói que lutava debaixo d'água contra os polvos malvados e a lulas malditas e venenosas. E ele não morria afogado? Não, meu filho, porque ele era meio "peixe" também. E pescavam ele? É... Tinha uns homens malvados que queriam pescar ele, mas ele era craque. Tinha você, antigamente? Eu? É. Você, com seu papai e sua mamãe? Tinha... tinha eu... mas eu era pequenininho também... olha aqui no retrato.

Por que você está chorando no colo desse homem? Não sei; eu acho que era vocação ha! ha! Que que é vocação? É um negócio aí... Você tinha amigos, papai? Tinha. Tinha o Bertoldo, o Bertoldinho e o Cacasseno (personagens de um livro de estórias) e... o meu amigo Albertinho Fortuna... (não sei por que transformei esse cantor popular dos anos 50 num "amigo de infância"...                Sempre achei graça nesse nome: Albertinho Fortuna...).               E vocês caçavam o gambá gigante? Sim; a gente ia na floresta e ia cada um com um pau na mão e íamos até a caverna do gambá gigante, que ficava lá no alto do Corcovado. Lá onde tem o "Quisto Redentor"? Isso, filhinho, a gente ia subindo a pé porque antigamente não tinha o trenzinho e, quando chegava perto da casa do gambá gigante, a gente sentia o cheiro, argghhhh, era um cheiro horroroso e aí não adiantava nem bater nele, a gente gritava de fora, tapando o nariz: "Gambá gigante, sai daí!.. Sai, gambá!" Aí, quando o gambá saía, zangado, porque estava dormindo e ia atacar a gente, o Albertinho Fortuna pegava um vidro de perfume Coty e tacava nele e aí o gambá gigante ficava cheirozinho e ficava amigo da gente... E pronto... E aí, todo mundo ia dormir, feito você, agora...

E, enquanto meu filhinho começa a dormir, pensando no gambá cheiroso, eu vou pensando em sua pergunta profunda: "Pai, o que que tinha antigamente?" Bem - respondo para mim mesmo - antigamente, tinha eu, outro "eu", diferente deste casca-grossa de hoje... É... tinha eu... tinha nossa casinha de subúrbio, pequena, com quintal, galinha e mangueira e, fora de casa, tinha minha curta paisagem de menino: rua, poste, fogueira no capinzal, a luz do carbureto do pipoqueiro, a luz nas poças com a Lua tremendo na água, balões coloridos no céu, trêmulos de lanterninhas, balões-tangerina, balões-charuto. De dia, tinha o Sol que era meu, a chuva que era minha, tinha as nuvens que eram minhas, as nuvens-girafa, as nuvens-camelo, que eu contemplava deitado no chão de terra onde as formigas eram minhas também, os caramujos nas folhas eram meus, sua gosminha madrepérola era minha, tudo fazia parte de meu universo de subúrbio.

Uma vez, teve um grande eclipse, e eu fiquei olhando minha família olhando o Sol negro através de cacos de vidro escuros e, eu me lembro, tive a sensação dolorida de que a casa, papai de uniforme de capitão, minha irmãzinha chorando, a triste empregada com pano branco na cabeça, as árvores, as galinhas, tudo ia passar, e que nós íamos nos apagar também, como o Sol, tudo indo para longe, como os urubus, mais longe, quase no infinito, na bruma.                       Nas ruas, tinha uma luz mortiça nas janelas das casas, o som do rádio com as novelas deprimentes e o seriado do Capitão Atlas, tinha os namorados no portão, tinha os amores impossíveis, os suicídios com guaraná, as luas-de-mel fracassadas, tinha as lâmpadas de carbureto dos carrinhos de pipoca, os velhos discos de 78 rpm, os cantores com som precário, as primeiras TVs em preto-e-branco, as saudades do matão, o luar do sertão, tinha um Brasil mais micha, mais pobre, cambaio, troncho, mas bem mais brasileiro que hoje, em seu caminho da roça que o Golpe de 64 interrompeu, e que, agora, essa mania prostituída de "Primeiro Mundo global" matou a tapa.Hoje, esta pobreza é disfarçada pela falsa vertiginosidade de um progresso que nos submete como uma lei das forças produtivas.                                  É... - eu penso - antigamente, filho, tinha também uma coisa chamada "povo"; não o povo arrebentado, dividido, tonto de hoje. Era uma pobreza mais pobre, mas menos, como direi, menos clamorosa, menos trágica. Tinha uma nacionalidade ilusória, sim, com o povo apinhado nos bondes, iludido, mais burro que hoje, sem defesas, mas era um falso país em que acreditávamos. Isso era legal, apesar da ingenuidade de acharmos que bastava o grito das massas e a vontade de justiça para que um novo país se realizasse. Em 63, não sabíamos ainda que a democracia custava tanto, que teríamos de passar pelo inferno de 20 anos de ditadura, e tinha, sim, um "vazio" no Brasil, mas era um vazio que nos dava idéia de que algo ia ser construído ali naquele espaço, que ia surgir uma sociedade original, mesmo num futuro nevoento, cheio de urubus.E, aí, eu me pergunto, vendo meu filhinho dormir: Como fazer, meu filho, para restaurar aquela idéia de Brasil, sem fugir das regras duras deste tempo de vertigem global? Eu não sei. Nem ele - sonhando com o gambá gigante, sob a voz melodiosa de Albertinho Fortuna, cantando por cima do tempo.



Escrito por Aninha às 18h43
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1º texto

A felicidade é a empada do "Bigode"

Nossa visão de alegria é não ver o mal do mundo. No fim de ano todo mundo começa a falar: “Feliz natal, feliz ano novo!”. Mas, ser feliz, como? O sujeito passou o ano todo quebrando a cara, reclamando da mulher, batendo nos filhos, lutando contra o desemprego, sendo humilhado pelos patrões, e aí, chega o fim do ano e todo mundo diz: “Seja feliz!” E aí o sujeito tem de estampar um sorriso alvar no rosto, uma baba simpática, um olhar vazado de luz bondosa, faz uma arvorezinha de Natal com bolotas coloridas, mata um peru magro e pensa: “Sou feliz!” “O ano que vem vai melhorar!”

Felicidade muda com a época. Antigamente, a felicidade era uma missão, a conquista de algo maior que nos coroasse de louros, a felicidade demandava o “sacrifício”, a luta por cima de obstáculos. Felicidade se construía – por sabedoria ou esforço criávamos condições de paz e alegria em nossas vidas.

Hoje, felicidade é ser desejado. Felicidade é ser consumido, é entrar num circuito comercial de sorrisos e festas e virar um objeto de consumo. Hoje, confundimos nosso destino com o destino das coisas... Uma salsicha é feliz? Os peitos de silicone são felizes?
A felicidade não é mais interna, contemplativa, não é a calma vivência do instante, ou a visão da beleza. A felicidade é ter um “bom funcionamento”. Marshall McLuhan falou que os meios de comunicação são extensões de nossos braços, olhos e ouvidos. Hoje, inverteram-se. Nós é que somos extensões das coisas. Fulano é a extensão de um banco, sicrano comporta-se como um celular, beltrana rebola feito um liquidificador. Assim como a mulher deseja ser um objeto de consumo, como um eletrodoméstico, um “avião”, uma máquina peituda, bunduda. Claro que mulheres lindas nos despertam fantasias sacanas mas, em seguida, pensamos: “E depois? Vou ter de conversar...e aí?” Como conversar com um “avião” maravilhoso, mas idiota? (aliás, dizem que uma das vantagens do Viagra é que, esperando o efeito, os homens conversam com as mulheres sobre tudo, até topam “discutir a relação”).

Mas, o homem também quer ser “coisa”, só que mais ativa, como uma metralhadora, uma Ferrari, um torpedo inteligente e, mais que tudo, um grande pênis voador, pássaro superpotente, mas irresponsável, frívolo, que pousa e voa de novo, sem flacidez e sem angústias. Seu prazer é cumulativo, feito de apropriações indébitas, dando-lhe o glamour de uma eterna juventude que afasta a idéia de morte ou velhice.E eu não falo isso como crítica. Não. Eu tenho inveja, a verde, viscosa e sinistra inveja dessa ausência de angústia, dessa ignorância gargalhante que adivinho sob os seios de mulheres gostosérrimas ou nos peitos raspados de garotões lindos. Quero ser feliz, mas carrego comigo lentidões, traumas, conflitos. Sinto-me aquém dos felizes de hoje. Posso ter uma crise de depressão em meio a uma orgia, não tenho o dom da gargalhada frouxa, posso broxar no auge de uma bacanal. Fui educado por jesuítas e pai severo, para quem o riso era quase um pecado. O narcisismo de butique de hoje reprime dúvidas e tristezas óbvias. Eles têm medo do medo e praticam uma espécie de fobia eufórica, uma síndrome de pânico ao avesso: gargalhadas de pavor. E ainda atribuem uma estranha “profundidade” a esta superficialidade, porque, hoje, esse diletantismo tem o charme raso de ser uma sabedoria elegante e “pós-tudo”. Mas, falo, falo e não digo o essencial. Hoje, a felicidade é entrar num pavilhão de privilegiados. Eu queria não pensar, queria ser um imbecil completo sem angústias – (meus inimigos dirão: “Você tem tudo pra isso. Sou uma esponja que se deixa tocar por tudo, desde a crise da dívida pública até o muro da Cisjordânia. Lembro a personagem de Eça de Queiroz que dizia: “Como posso ser feliz se a Polônia sofre?”

Hoje, a felicidade está na relação direta com a capacidade de não ver, de negar, de “forcluir” como dizem os lacanianos. Felicidade é uma lista de negativas. Não ter câncer, não ler jornal, não olhar os meninos miseráveis no sinal, não ver cadáveres na tv, não ter coração. O mundo está tão sujo e terrível que a felicidade é se transformar num clone de si mesmo, num andróide sem sentimentos, sem esperança, sem futuro, só vivendo um presente longo, como uma “rave” sem fim. Pedem-me previsões para o ano que vem. Tudo pode acontecer. Quem imaginaria o 11 de Setembro?

Osama nos legou o fatalismo dos árabes. Daqui para frente, teremos de aprender com eles a dizer: “-Maktub!” – tudo estava escrito, nada nos surpreenderá mais. Só nos resta a orientalização, a religião evangélica louca ou a “objetificação” do consumo. Ou então, viver a felicidade das pequenas coisas. Outro dia, eu estava comendo uma empada de palmito na porta da Globo (na Kombi do “Bigode”, que faz as melhores empadas do mundo) quando, sem quê nem porquê, fui invadido por uma infinita ventura, uma felicidade que nunca tive. Durou uns minutos. Não sei a razão; acho que foi um protesto do corpo, um cansaço da depressão. Mas, logo depois, passou e voltei ao duro show da vida.

Hoje felicidade é o brilho de um solitário que suga o prazer, sem conflitos, sem afetos profundos, mas sempre com um sorriso simpático e congelado, porque é mais “comercial” ser alegre do que o velho herói dos anos 60, que carregava a dor do mundo. O herói feliz acha que não precisa de ninguém, que todos devem se aprisionar em seu charme, mas ele é ninguém. Para o herói criado pela mídia, o mundo é um grande pudim a ser comido. Feliz natal e feliz ano novo.



Escrito por Aninha às 23h45
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1º POST - Pra entender...

Oi pessoas, este espaço reservo p/ publicar Crõnicas e Textos do ARNALDO JABOR.

Todos q aqui entrarem, fiquem sabendo que já tenho meu blog: http://anacarolinacosta.weblogger.terra.com.br

Mas resolvi criar um espaço p/ compartilhar c/ amigos e conhecidos alguns textos, q acho d uma sabedoria imensa.

Espero q gostem, me visitem , opinem, critiquem e por favor, quero sugestões!

Então, fiquem a vontade, quero muito ver quem será meu 1º amigo a fazer uma visitinha nesse meu novo espaço!

Bjos, e bom final de semana.

Ah, vou deixar um texto aqui...

Mas antes vou deixar 2 coisinhas bem esclarecidas.

1º) Talvez meus posts sejam semanais, mais certo nas sextas.

2º) Os textos são deste ano, mas muitos, dos anos anteriores, portanto, se tiver alguma msg do tipo: Dia das mãe, pais... Não interessa muito a data, e sim a mensagem.



Escrito por Aninha às 23h20
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